Te Vejo De Longe

E’ isso

17 minutos pra resumir 7 meses. Gastei minhas ultimas moedas de euro no computador do aeroporto e estou pronto pra voltar.

Eu me lembro bem de quando eu estava prestes a viajar, contando pras pessoas sobre os lugares que eu iria visitar, as coisas que eu pretendia fazer, meus itinerarios, tudo. Nem todo mundo entende, nem todo mundo ve algum sentido nisso tudo. Eu nao sabia bem no que ia dar, so sabia que era um desafio, so sabia que eu queria. Muito. Foram 7 meses maravilhosos, e e’ muito bom poder dizer que eu tenho certeza de que foram os melhores meses que eu ja tive. Em alguns dias a gente olha pra parede e pensa ‘daonde eu tirei essa ideia? por que eu to aqui longe de todo mundo que eu gosto e tudo que eu conheco?’. Em grande parte da viagem a sensacao foi de estar no lugar certo, fazendo exatamente o que devia estar fazendo. 7 meses de muita calma, mesmo com exorcismo, acampamento no deserto, cobra no pescoco, aulas muito dificeis, linguas novas, malas perdidas, festas na praia, alunos, colegas e muitos amigos. Muitos tchaus dificeis, e acho que o tchau mais dificil e’ agora. Eu quero voltar, quero ver como ta a minha vida real, mas o que eu tive nesses 7 meses foi especial demais e nao e’ facil assumir como passado. Volto com muitos planos, muitas ideias novas, e ja com saudades dessa sensacao maravilhosa de estar em um lugar e achar que tudo esta fazendo sentido.

Dedico isso aqui e muito mais pras pessoas que me ensinaram a viajar. Especialmente a minha vo’.

Couchsurfing

Ja ouviu falar em couchsurfing? A proposta e’ viabilizar viagens mais baratas e criar novas amizades entre pessoas que gostam de viajar. Como? Voce faz o seu perfil e disponibiliza um sofa/cama pra um desconhecido viajante na sua casa, de graca, ou voce simplesmente faz um perfil e sai a caca de pessoas dispostas a te hospedar nas cidades que te interessam. O que garante que nao se trata de um bando de gente bizarra sao depoimentos de quem ja passou pelo sofa, mas de qualquer forma, nunca se sabe!

Saindo da Italia eu iria encontrar minha grande amiga Marcia em Madrid e iriamos ficar hospedados na casa de um rapaz chamado Sven (que nunca haviamos visto antes). Cheguei no aeroporto e tinha a instrucao de ligar pro companheiro de apartamento do Sven, um tal de Gonzalo e organizar como e’ que eu ia fazer pra chegar no apartamento. Bele! Oi Gonzalo, tudo bem? Como eu faco? Ah, tranquilo, chegando na estacao eu te ligo! Ta, tudo muito simples, cheguei, liguei, esperei. Como voce me reconhece? Estou com duas malas! Mas quem e’ Gonzalo? Da-lhe esperar… Um mano inteiro de preto e piercings, um cara careca mal encarado, o Gonzalo foi varias pessoas por alguns instantes. Vejo um rapaz andando de um lado pro outro na frente da estacao, ligo pra ele: Gonzalo, voce ta de vermelho? AHHHH, eu to te vendo!!

Gonzalo e’ um chileno fazendo faculdade aqui em Madrid, e divide apartamento com o Sven, um alemao que tambem veio para estudar e fala um portugues perfeito de quem morou um ano no nordeste brasileiro. Dois desconhecidos, gente bonissimas. No fim das contas o Sven viajou para a Inglaterra pra um encontro de estudantes, e eu e a Marcia estamos hospedados no quarto dele. Ele deixou as chaves, o computador, tudo, e fez questao de falar ‘sintam-se em casa, comam o que quiser’ mais de uma vez. Gonzalo fez comida quando eu cheguei, me levou pra um tour enquanto a Marcia nao havia chegado, nos levou pra sair, batemos mil papos, e por ai vai. A boa vontade deles nos chocou muito, e certamente contribui pra estarmos adoraaaando Madrid. Ja andamos pacas, fizemos uma viagem de uma tarde a Toledo, fomos a varios museus, cafes, saimos a noite, tomamos mil e um sorvetes.

Um pouco dos meus dias na Europa.

Turista Aleatorio

Essa historia de viajar meio sem planos fixos é legal pacas, mas nem sempre da tudo certo. Eu tava de papo com um pessoal que eu conheci no Marrocos de nos revermos aqui na Italia, mas no fim nao deu em nada. O que deu bem certo foi eu ter decidido passar uns dias em Genova, que se tornou minha cidade favorita na Italia. Legal merrrrmo. Fui no segundo maior aquario do mundo, enfrentei meu medo de bichos maritmos e toquei numa arraia (bem aspera). E eu assumo, sou um turista bem aleatorio, fui num museu de historia natural e juro, acho que eu fiquei umas 2 horas la dentro, vendo bichos empalhados e alimentando minhas obsessoes de infancia com um fossil de pterodactilo. E o resto foi aquele esquema de andar meio sem rumo, correr pro mapa quando fica escuro, sempre rastreando as lojas dos arabes (so pra soltar um Shukran no final e me sentir o dono do mundo por um segundo). Depois de Genova passei uma tarde incrivel em Milao com a Sunita, uma guria suica que eu conheci no meu primeiro mes na India, e no mesmo dia fui de trem ate Modena. Modena foi uma decisao monga. A cidade tem la sua importancia, mas nao tive muito o que fazer. E o albergue… Meeeeu amigo, que albergue!! Falar que parecia um hospital abandonado seria muito leviano, rs. O banho bate recordes. Na India eu reclamei dos banhos, mas pelo menos eu tinha algum controle. Nesse albergue maledetto era o famoso esquema do chuveiro de botao. Voce aperta o botao e um BURACO na parede cospe agua em voce por 2 (DOIS!) segundos. Pelando ou congelando. Entao voce aperta o botao, abre o shampoo, aperta o botao, bota shampoo na mao, aperta o botao, passa o shampoo, e por ai vai. Que banho prazeroso! Quando eu voltar pra casa eu acho que vou tomar um de 3 horas, haha. E dai que os meus planos deram BEM errado. Eu planejava ir pra Bologna em seguida, mas nada de albergues, hoteis baratos, couchsurfing, nada disponivel. Uma feira de sei la o que vai acontecer la nesse fim de semana e me ferrei bonito. Ficar em Modena dois dias a mais? Risos! Vim pra Florenca que aqui tem mais o que fazer com tempo extra. Na segunda me encontro com a Clarissa (lembra? minha primeira amiga na viagem!) e dai oficialmente e’ o comeco do fim. E esse fim vai ser praticamente um processo de reabilitacao. Me encontro com a Marcia em Madrid e o Marcelo em Paris, vamos ver se eu destravo meu portugues um pouco, por que peeeelo amor de deus, eu me sinto quase a gaga de ilheus quando eu encontro algum brasileiro! Acabei de jantar chines com as espanholas do albergue e to explodindo. Beijo!

Maloqueiro

Negocio e’ o seguinte, estou na Italia e o que existe de pizzarias, restaurantes, panificadoras, lojas de chocolate e afins por aqui e’ uma coisa absurda. Por que o pais inteiro nao sofre de obesidade morbida? Por que tudo e’ muito caro, e metade do salario deles deve ir tudo em roupa, bronzeamento artificial, salao, maquiagem, sobrancelha de travesti, (desce a lista…). Esse pais e’ uma grande passarela, me sinto um maloqueiro. Mas maloqueiro feliz, por que passei uns dias em Veneza, estou em Torino e amanha vou a Genova. Uma gastanca sem cabimento, ate albergue ta saindo uma fortuna! Turismo e’ esquema garantido, eles nao precisam fazer muito esforco. Queda vertiginosa da qualidade dos albergues em comparacao com Croacia, Montenegro e Eslovenia. E’ um tal de chuveiro ruim, um banheiro so pra vinte mil pessoas, cobertor que nao e’ lavado nunca (?), e por ai vai. Confesso tambem que tenho a impressao de que os meus destinos anteriores pareciam atrair um tipo de turista mais interessante, nao tenho conhecido muitas personalidades marcantes por aqui. MAS, porem, entretanto, no meio de mil e um norte americanos conheci uma dupla de brasucas que quase me matou de rir. :D

Beijo!

Policia, Chocolate, Barco e Cinema Porno

Como foi minha pascoa? Mil e uma horas num onibus de Split ate o norte da Croacia ouvindo um velho alemao batendo papo com um rapaz e um coroa croatas, todos GRITANDO em ingles com sotaques que competiam no quesito horror. Mais umas horinhas num trem ate Ljubljana, Eslovenia, e la vem a policia pegar meu passaporte e me fazer abrir minhas malas… Tudo que dava pra perguntar o homem perguntou. O que e’ isso? (Um lenco para a minha mae) O que voce foi fazer na Turquia? (Pegar um voo, so’ isso!) Pra que tantos remedios? (*Minha vontade era responder ‘Seu policia a India e’ um grande festival de turistas com diarreia!). Ter que explicar tudo nao e’ legal, todo mundo no trem te olhando e vendo o que voce tem dentro da sua mala nao e’ legal, se sentir em desvantagem nao e’ legal. Terminou o interrogatorio, passaporte carimbado, cara de cu olhando pras malas desmontadas no chao do trem, pacotes destruidos na pressa de mostrar o que tinha dentro. Surge uma menina: ‘Voce ta bem?’, ‘To sim, me sentindo o coco, mas to bem’, ‘Toma um chocolate, e’ pascoa!’. Tem gente legal no mundo inteiro, sorrisinho enquanto refazia as malas. (:

Cheguei em Ljubljana la por meia noite, encontrei o hostel sem problemas (como sempre! hhum) e dormi. No dia seguinte andei o dia inteiro e vou ser sincero, nada de muito especial. Tirei 2 fotos (medonhas) e e’ isso. O destaque de Ljubljana foram os peruanos gente bonissimas que dividiram quarto comigo e ate’ me acordaram pra dar tchau (fato inedito ate entao na viagem!). Eles falavam espanhol, eu falava portugues, a gente se entendia na interseccao (e o australiano gordines boiando, coitado). No dia seguinte rolei na cama ate nao poder mais e peguei um onibus ate aqui, uma cidade chamada Bled.

Bled e’ bem sem cabimento. Micro-cidade com um lago lindao no meio. Uma ilha no meio do lago, um castelinho no meio da ilha, um penhasco na beira do lago com um castelao bonito pacas! Tudo pedindo foto. Fiz passeio de barco ate a ilha e uns turistas malditos quase me viraram o barco indo todos prum lado so pra tirar foto. Fiz cara feia ate nao poder mais! rs. Preciso mencionar que a cidade e’ minuscula mas eles tem ate cinema porno 3D (fiquei chocado, uma casa colorida pertinho do hostel). (Eu nao entrei, orra… Affff)

Beijo!

6 Months Already???

Se existe algo que eu vou lembrar muito da Croacia e Montenegro e’ de como isso aqui e’ um grande troca troca de turistas. Todo mundo tem mais ou menos o mesmo roteiro, as mesmas ideias, so ordens e combinacoes diferentes. Em uma cidade voce conhece um, duas ou tres cidades depois voce reencontra a mesma pessoa, com novidades pra contar. Isso nao me aconteceu uma vez, mas umas quatro. Em Budva, Montenegro, reencontrei dois noruegueses que dividiram quarto comigo em Zagreb. Eu nao mencionei que lembrava por que vi um deles caindo da cama, mas eles nao perguntaram, entao beleza. Tirando fotos em Sveti Stefan reencontrei do nada a dupla de rapazes de Hong Kong que conheci em Dubrovnik e que quase botavam um ovo pra tudo que eu falava (‘6 MONTHS ALREADY???’, ‘INDIA????’, etc etc). No onibus para Split reencontrei o rapaz de Hong Kong bichona que dividiu quarto comigo em Budva e chegando no hostel de Split reencontrei a australiana gente bonissima que participou de uma das festinhas no hostel de Dubrovnik. Festa essa que comecou com eu e a recepcionista esperando quatro mexicanos que haviam feito reserva e nao chegavam. Com mascaras de luta livre mexicana, chamando o resto dos ‘hospedes’ pra participar, vinho de graca por conta do hostel, brindando ao Mexico, e por ai vai. Eles chegaram e quase morreram de medo, mas a festa continuou ate tarde. Boas lembrancas! Minha missao vai bem, tenho comido ‘seafood spaghetti’ e/ou ‘seafood risotto’ pelo menos uma vez por dia e recuperando na velocidade da luz os quilos perdidos na India. Good times! Minha passagem por Montenegro foi breve, mas bem aproveitada. Nao e’ muito diferente da Croacia, as ruas sao mais sujas mas a comida e’ mais gostosa. Mudei um pouco meus planos e vou tentar chegar na Eslovenia amanha ou depois. Tempo voaaaando. Beijo! :D

Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver… Il faut aller voir - é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo

Mar sem fim: 360º ao redor da Antártica‎, de Amyr Klink  (via targino)

Dubrovnik

Estou em Dubrovnik! Em menos de 2 horas na cidade eu decidi que queria ficar uma noite a mais. E’ minuscula mas impressionante. O hostel e’ otimo e fica bem no meio da cidade velha, que e’ aquele esquema de ruelinhas, igrejas, telhados laranjas, barquinhos, gatos correndo de um lado pro outro, criancas brincando, velhas vendendo de tudo, pouquissimos turistas por que e’ completamente fora de temporada. Se tem uma coisa que eu escuto muito aqui na Croacia e’ sobre como tudo e’ melhor no verao. To no clima de relaxar, passear sem muito rumo, comer bastante, tomar sorvete, e por ai vai. O verao Croata e’ pra quem quer festa, entao to satisfeito com o friozinho, sol e vento de agora. Em Split eu dividi o hostel com uma canadense gente bonissima que planejou de vir pra ca no mesmo dia. Acabamos passeando bastante e rindo juntos dos garcons bem humorados de Dubrovnik. Outra companhia foi um carioca de sessenta e tantos anos cheio de historias de viagens absurdas. E por ai vai. Eu amo hostels. Todo mundo palpitando no roteiro alheio! Amanha estou indo pra Kotor, em Montenegro, um dos paises mais novos desse planeta!

A Parte Final

Se em alguma parte da viagem eu senti um abismo entre um pais e outro, foi agora, saindo da India e chegando na Croacia. A India por si so ja e’ um pais alienigena que nao se compara com nada, mas a Croacia consegue ser praticamente o oposto. Eu nao vou esconder o favoritismo, meu ultimo mes deu de dez em muita coisa que eu ja fiz nessa vida, minha cabeca permanece ocupada pensando nos alunos e amigos. Um dos assuntos mais recorrentes com o pessoal de la era de como viajar na India nao sai de graca. E’ quase um pacto. O pais pede algumas coisas de voce, e se voce estiver disposto a se adaptar, ganha a recompensa: aproveitar. Nao se importar com barulho, sujeira, comida estranha, animais por toda parte, cama ruim, banho bem ruim, falta disso, falta daquilo. Da pra dizer que eu tava tirando de letra! A Croacia nao exige nada disso e meu cerebro ta meio travado com as diferencas.

MAS! O pais parece ser lindo! rs

Cheguei em Zagreb, fiquei 2 dias e vim pra Split, daonde parto depois de amanha pra Dubrovnik. Tudo muito limpo, muito quieto, muito organizado.  Minha missao e’ comer o maximo de frutos do mar que eu conseguir (por que ‘FRUTOS’? quem inventou esse termo?) e relaxar extra pra terminar essa ultima parte da viagem em alto estilo. Meu roteiro e’ o seguinte: Croacia, Eslovenia, Italia e Espanha. Quanto tempo em cada um eu nao tenho a menor ideia, mas vai ser su-su-cesso!

More Information