Te Vejo De Longe

Kochi e Munnar

Massagens e Plantações de Chá

Parte 1:

Cinco minutos andando nas redondezas do hostel são suficientes pra perceber que à essa hora não tem nada acontecendo. Me sento na entrada e fico assistindo os gatos de rua. O nome do hostel: Vedanta Wake Up! Wake up mesmo, quero entrar… São quase 6 da manhã quando escuto passos vindo de dentro. A porta se abre e um indiano descabelado me recebe.
“Pode subir, quarto número 2, qualquer cama que estiver livre”.
Entro no quarto tentando não fazer barulho mas logo uma garota acorda.
“Oi, nossa, mal dormi e já tá na hora! Mas pelo menos já tô de roupa pronta pra ir, haha!”
“Na verdade… Ainda são 6 da manhã” Informo.
“Ah… Ok!”
Dormimos.

Umas 5 horas depois é ela quem acaba me acordando.
“Nossa, o jetlag tá forte! Aquela hora eu tava pronta pra começar o dia, haha!” Diz ela.
“Você ta começando tua viagem em Kochi?”
“Sim, peguei um vôo da Austrália até Kuala Lumpur e de lá até aqui, cheguei ontem”
Essa é a Nicola. Ela fala sem muita cerimônia enquanto balança seu rabo de cavalo e ocupa bastante espaço. Não fosse tão carismática, nada disso funcionaria. Mas funciona.

“O que você vai fazer hoje?” Ela me pergunta.
“Não sei… Tá acontecendo aqui em Kochi a primeira bienal indiana”
“O que é uma bienal?”
“Uma… Super-exposição de arte”
“Ahh! Tem duas australianas que vão nessa coisa hoje!”
E simples assim eu já estou com três companhias pra bienal.

No meio da desorganização indiana, que tantas vezes me frustra, a bienal surge como uma grande surpresa. Me fez lembrar das pessoas na minha vida que apreciam e produzem arte. Aproveitei por todos nós, como se fosse minha responsabilidade.

Além da bienal, Kochi não oferece muitas opções do que fazer. A atracão principal acaba sendo as pessoas do hostel. Saímos pra comer, sem nunca repetir o lugar, passamos tempo no Vedanta, passeamos e eventualmente alguém compra alguma coisa. E às vezes, pela falta do que fazer, surgem idéias questionáveis.

No terceiro dia em Kochi, eu, Nicola, e o holandês Nick, decidimos ir atrás de uma massagem. Estamos em uma parte da Índia famosa pela medicina herbal, faz sentido, aqui é o lugar. O indiano descabelado do hostel nos recomenda um lugar nas redondezas. Parece confiável, entramos. Um senhor de uns 65 anos nos atende e logo informa que não será possível fazermos os três ao mesmo tempo. Nick vai na frente enquanto eu e Nicola partimos pro almoço. Ao voltarmos, Nick já se foi. Sentamos e recebemos um menu de massagens. Dentre massagens esfoliantes, relaxantes, com óleo quente sendo despejado no terceiro olho, eu realmente não sei o que escolher.

“Qual foi a massagem que o Nick fez?” Pergunto.
“Ele optou por uma massagem Podikizhi, muito boa” Responde o senhor.
“Ok… Pode ser uma dessas…”
“E pra mim uma massagem relaxante” diz Nicola.
Ele preenche uma ficha com algumas informações e nos dirigimos às salas de massagem, eu com o senhor e Nicola com sua esposa.

“Ok, você pode tirar suas roupas” Diz ele.
Fico apenas de cueca.
“Agora você pode entrar no banheiro e trocar a cueca por isso” Ele me entrega uma espécie de tanguinha feita de um estreito tecido branco retangular costurado em um fio comprido.
“………..Tá”. Seguro aquilo sem entender muito o que é.
Entro no banheiro, tiro a cueca, amarro o fio ao redor da cintura, passo o tecido retangular pelas pernas e o prendo atrás por baixo do fio, dando certa folga. Tá certo isso? Não tem outro jeito.

Saio, me deito na cama e antes da massagem começar ele faz questão de puxar o tecido pra cima, fincando completamente. Ótimo.
“Você tem o pescoço muito tenso” diz ele.
(Jure, Sherlock…)
Em 10 minutos de massagem eu já percebi que não se duvida de um senhor de 1,60 de altura em seus 65 anos. Lombar, panturrilha, coxa, ombros, que dor!
“Aiaiai, calma!”
“No pain, no gain” diz ele.
A massagem vai ficando mais e mais oleosa, estou me transformando em um peixe. Logo esse segmento acaba. De repente sinto algo muito quente me golpeando nas costas.
“Aaaau, que isso?” Me viro imediatamente e vejo nas mãos dele duas almofadinhas brancas do tamanho de romãs.
“Sir, compressas herbais”
Socorro.
Ele continua me golpeando como um daqueles sacos de artes marciais.
“Ok, sir. Agora banho herbal”
To merecendo uma banheira bem gostosa agora.
“Entre no banheiro e se sente na cadeira”
Ah tá, por que não tava estranho o suficiente. 2 minutos esperando ele voltar pareceram 20. Ele entra com alguns potinhos nas mãos e os coloca na pia.
“Sir, shampoo herbal” Ele passa no meu cabelo e começa a fazer espuma.
Eu não acredito que tem um velho indiano dando banho em mim. Fecho os olhos.
“Sir, sabonete herbal” Ele começa a passar nos meus braços e pernas, não faço muita questão de abrir os olhos.
Por fim ele joga um balde de água em mim como se quisesse acordar um morto. Ele sai, me seco, boto minha roupa. Como se houvéssemos cronometrado, ao abrir minha porta, Nicola está do outro lado da sala abrindo a dela.

“Tá, por onde eu começo?” Digo.
“Hahaha, meu Deus, né?”
“Haha, como você se sente?”
“Hmm… Confusa? Mas não… foi ótimo”
“Idem”

Saímos os dois em direção ao hostel Vedanta. Confusos, sebosos e com o corpo mole. Ao chegarmos, Nick está no sofá da sala. Ao nos ver ele instantaneamente esboça um sorriso engraçado no rosto.

“Nick… Me explica essa massagem…”
“Qual você fez?” Ele pergunta.
“A mesma que você…”
“Hahahaha, não tem explicação!”
“Me senti um velho senil sendo lavado no final!”
“Sim! Eu não queria abrir os olhos enquanto não acabasse, haha!”

Passamos o resto do dia rindo da massagem e nos programando pro dia seguinte.

Parte 2:

Ao amanhecer, a australiana Nicola, o holandês Nick, e eu, estamos deixando Kochi em direção a algo completamente diferente.

“Munnar… MUNNAAAR! Eu adoro esse nome. Acho que um nome interessante favorece muito!” Digo empolgado.

O ônibus vai subindo as montanhas e depois de algumas horas começa a aparecer a principal razão por termos vindo: plantações de chá. Como um tapete felpudo cobrindo tudo ao redor de verde, estamos chegando em Munnar. Saímos na primeira parada do ônibus e temos uma subida íngreme pela frente até chegarmos no lugar onde passaremos a noite. Fizemos questão de reservar um lugar no meio das plantações.

Zina Cottages, tá lá. Deixamos nossas malas no quarto e vamos jantar. A cidade em si é minúscula e não muito interessante, estamos empolgados pra passearmos nas montanhas de Munnar amanhã. Comemos e voltamos no escuro. Ao chegarmos Nick faz amizade com dois americanos e decidem começar uma fogueira. Me junto aos três e Nicola prefere ir direto pra cama.

A impressão é de conseguir ver o universo inteiro do meio dessa plantação de chá. São tantas estrelas que quando olho pra cima aquilo parece me engolir.

No dia seguinte acordamos cedo e nos preparamos pra explorar as montanhas.
“Nicola, você não vem?”
“Não tô muito no clima…”
Nos encontramos com nosso guia e um casal austríaco se junta a nós. Duas horas depois estamos tomando nosso café da manhã do topo de uma montanha, um mar de plantações de chá ao nosso redor. Voltamos mais ou menos na hora do almoço.

Abrimos a porta do quarto e Nicola não está. Tampouco vemos suas coisas. Em cima da mesa um papel.

“Money from Nicola” e duas notas de dinheiro.

“Simples assim, ela foi embora” Digo.
“Uau” Nick também não sabe o que achar.

Amizades de viagem… Surgem de repente e evoluem rápido. Nascem de um vínculo forte: estamos no mesmo lugar, na mesma hora, e bem longe de casa. Tivemos a mesma idéia, e pra ser sincero, não é das mais convencionais. Me pergunto se amizades de viagem são muito diferentes das outras. Acho que não. Tem gente que simplesmente some. E mesmo se sumir: Boa viagem, que seja maravilhosa.

No dia seguinte, Nick me acompanhou até a estação de ônibus e tive que me despedir de uma pessoa realmente incrível.

Sigo em direção ao sul.

Hampi

‘On the Road’ versão indiana

Hampi é o tipo de lugar que eu precisava depois de duas semanas semi-vegetativas em Goa. É um vilarejo no meio de um complexo de templos que eu sei lá onde termina. É tão grande que parece não terminar. Um rio divide o vilarejo em dois e rios são sempre bem’vindos. Rios, mares, lagoas, toda cidade precisa de água.

Depois de 12 horas de ônibus (não dormidas) eu preciso apagar um pouco. Acordo no meio da tarde e vou em busca de comida. No caminho vejo um careca que raspou a cabeça e deixou na parte de trás o símbolo do Om (ॐ) feito de cabelo. Turistas na Índia, sempre uma atração! Ele se vira.

“BERNARDÔ!”

“Simon, você!”

“Como você tá, rapaz?”

“Cansado… Essa viagem de ônibus foi tensa, haha”

“Pois é, 12 horas não é pouca coisa”

“Especialmente se aquele canadense insuportável tá no teu ônibus…”

“Haha, ah é! Como foi isso?”

“Infernal, Simon… Pra ajudar, uma guria australiana apareceu com um valium e ele não calou a boca NUNCA”

“Maravilha… vai fazer alguma coisa amanhã?”

“Antes de ir embora eu tava pensando em ir no templo Hanuman pela manhã. Que tal?”

“Fechado! Te encontro ali naquele restaurante às 10h, Bernardô”

Almoço ali mesmo e vou passear. Templos bonitos, pessoas atravessam o rio em jangadinhas que parecem cestos, sadus, macacos, crianças jogam cricet, eu acho que era disso que eu tava precisando. Me empolgo e acabo entrando em uma trilha não muito oficial. Lalala que dia lindo, amo Hampi… Vejo um rabo marrom entrando no mato. Não, cobra não. Não agora e tão longe de casa. Dou meia volta com o coração batendo rápido.

Quero ver o por do sol do topo de um templo meio afastado de Hampi, preciso de um tuktuk. Enquanto negocio o preço com o motorista surge um rapaz com uma mochila gigante nas costas.

“Cara, preciso trocar essa nota de 100, você tem duas de 50?”

“Deixa eu ver… Sim. Aqui, duas notas de 50”

“Brigado, cara. Aonde você tá indo?”

“Parece que tem uma vista legal do por do sol nesse templo aqui…” Aponto no canto do mapa.

“Hmm, soa interessante, preciso de algo pra fazer até a noite”

“Então pronto!”

Meia hora depois, eu e o australiano Benjamin estamos chegando no templo, no topo de um morro, na área rural. O rapaz do tuktuk pergunta se queremos voltar com ele, mas o dispensamos. Dentro dos muros do templo uma portinha nos leva até uma parte exterior. Subimos algumas pedras e nos sentamos. Lá na frente um infinito de plantações, morros, árvores, e o céu começa a ficar laranja.

“Que visão!” comento.

“Sim, esse lugar é lindo… Não acredito que eu tenho só mais uma semana…”

“Uma semana de Índia e volta pra casa?”

“Sim, fiquei sabendo ontem que fui aceito em uma universidade, minha viagem foi cortada pela metade…”

“Mas ah, é por um bom motivo”

“Sim, mas é minha primeira viagem sozinho no exterior…”

“Te entendo”

“Muda muita coisa depois?”

“Olha… Não sei te dizer. Eu acho que a gente sempre vem esperando certas coisas e descobre que viagens e expectativas não são uma boa dupla, mas isso é ótimo”

“SIM! Não tem como prever nada!”

“Minha primeira viagem sozinho foi tanta euforia que às vezes era até difícil de entender onde eu tava, agora já é um pouco diferente”

O sol se pôs, ficamos mais um pouco e saímos. Assim que botamos o pé pra fora do templo percebemos que devíamos ter pedido pro rapaz do tuktuk nos esperar. Descemos as estrada do templo e chegamos na principal.

“O que a gente faz agora?” Não tem ninguém por perto e tá ficando bem escuro” ele diz.

“Tá, ficar aqui não vai ajudar…” Começamos a andar na direção de Hampi.

“Andando a gente vai demorar umas duas horas… CALMA! Tá vindo gente!” Um caminhão se aproxima.

“Que cê tá fazendo?” Pergunto enquanto ele chacoalha os braços histericamente como um náufrago em uma ilha deserta.

O caminhão para. Na caçamba dois trabalhadores rurais nos olham sem entender muito o que se passa. Benjamin me olha com os olhos arregalados e um sorriso meio maníaco.

“É isso ou nada!” diz ele apressado.

Subimos na caçamba, um dos indianos bate duas vezes na lateral da caçamba e o caminhão volta a correr. E correr rápido. O vento bate nas nossas caras, a caçamba dança como se quisesse jogar todos pra fora. É difícil de acreditar no que tá acontecendo, damos risada. Quase um ‘On the Road’ versão indiana, quase.

“Olha, estamos perto de Hampi!” aponto pra uma interseção na estrada.

“Ei! Eeeei! Para por favor!” ele grita.

O homem bate novamente na caçamba, o caminhão para e desço.

“Você não vem?” pergunto.

“Eu vou continuar”

“Então boa viagem, rapaz!”

“Se cuidaaaaa” ele grita enquanto o caminhão se distancia na estrada.

No dia seguinte acordo às 8 pra fazer minha mala. Estou melhor da barriga mas entupi a privada com papel higiênico. “A culpa é da mulher que não bota lixeira no banheiro” penso. Não é exatamente uma visão bonita, mas estou saindo daqui hoje…

Batidas na porta. À essa hora?

“Oi?”

“Oi, você sai hoje, né?” pergunta a velha estranha.

“Sim, mas o checkout é às 9h!”

“Tem uma menina aqui, quero mostrar o quarto pra ela”

(Essa criatura me bota um checkout ultra cedo e vem me atazanar uma hora antes?)

“Espera um pouco!” grito.

Com o banheiro nesse estado eu só abro a porta do quarto quando eu puder SUMIR! Começo a jogar todas as coisas dentro das malas sem muito critério.

“Ooi, eu quero mostrar o quarto, é rápido!”

“CALMA! Já vai!” Suo nervoso.

Ela continua insistindo. Minha vontade é de abrir a porta e dar um soco na velha, mas me concentro em terminar as malas.

Pronto, seco minha testa na fronha e saio.

“Oi, hehe, pronto, tô indo, tchau tchau!” saio meio apressado.

Me encontro com Simon e passamos a tarde no templo Hanuman. No fim do dia estou deixando Hampi. 

Depois de uma breve passada por Bangalore pra trocar algumas passagens, sigo em direção a Kochi, no sul da Índia. O trem chega às 3 da manhã. Pego um tuktuk em direção ao hostel.

“Sir, você é indiano?” pergunta o motorista.

“Não não, sou do Brasil”

“Brasil! Uau! Maradona!”

(PÁRA ESSA COISA AGORA!) Penso comigo.

“Não… O Maradona não é do Brasil…”

“Ahm… Ronaldo, sir?”

“Isso, Ronaldo” Participo sonolentamente.

Ao chegar, encontro o hostel fechado. Bato na porta mas estão todos dormindo. O que fazer em Kochi às 4 da manhã?

Tem que ser agora!

- Parte 1 -

Viajar sozinho é uma coisa boa. Boa por que não preciso dar satisfação pra ninguém. Posso passar quanto tempo eu quiser andando na praia, ouvindo música, dormindo, coçando a picada do mosquito. Não tem ninguém pra me avisar que tem comida no meu rosto, mas não tem ninguém pra me ouvir cantando no banho. Se eu quiser partir, ficar, mudar o roteiro, eu decido quando der vontade. Liberdade é uma coisa transformadora.

Viajar sozinho me dá tempo pra pensar. O que eu vou fazer quando eu voltar? Como eu vou recuperar tantos quilos? Pra onde eu vou me mudar? Como?

E às vezes… Será que já esqueceram de mim? Quem esqueceu primeiro?

Às vezes é tudo tão diferente, tudo tão distante, que me faltam provas de que minha outra vida existe.

Viajar sozinho é uma coisa boa, mas será que já esqueceram de mim?

- Parte 2 -

Tanto tempo no mesmo lugar me faz pensar demais. Eu gosto de Goa, mas preciso sair daqui.

Dia 1º de janeiro, acordo tarde e vou pra rua principal. Entro na primeira agência de viagens que encontro.

“Oi, eu preciso de uma passagem de trem de Goa até Hampi”
“Sir, olá, sente-se, por favor” o homem aponta pro banco.
“Oi, oi, bom dia”
“Sir, pra quando seria?”
“Amanhã”
“Ahn… Veja bem, no seu caso nós teríamos que tentar comprar um bilhete de urgência”
“Como funciona isso?”
“Se der tudo certo você volta amanhã cedo e te entregamos a passagem. Se não conseguirmos comprar, você volta amanhã e te devolvemos o dinheiro” a voz dele se torna irritante.
“Ok…”
“Muito bem, preciso de um documento seu”
“Aqui, meu passaporte”
“Minha nossa, nós temos o mesmo nome!”
“Oi?”
“Sir, o mesmo nome!” ele me entrega um cartão de visita.
“Não, calma, teu nome é Bernard, o meu tem um ‘O’ no final, heh”
“Não não não, espera, tá errado nesse cartão, deixa eu achar o outro… Aqui!”
“Bernado? O meu tem dois ‘R’s… Mas que legal, ‘mesmo’ nome…” antes que ele me apareça com um terceiro cartão.
“Há há há, que incrível, não?”
Enquanto ele faz uma foto-cópia do meu passaporte, leio o verso do cartão de visita.

“Nos encarregamos de passagens de trem e ônibus, transfers, extensões de vistos, bagagens perdidas e cadáveres”.

Calma. Quê?

“Pronto, tá aqui seu passaporte”. Pago e saio.

No fim da tarde estou com Maria e Thor jantando no Green Park. Não sei onde Baba se encontra. Minha última refeição aqui depois de duas semanas. Tô meio quieto, meio contemplativo. O que teria sido de Goa sem esse lugar? Não quero estender o momento, me levanto e vou pagar minha conta.

“Vikram…”
“Tchau, irmão, a gente vai sentir tua falta aqui. Volta ano que vem?”
“É… Por que não?” Eu sei que isso não vai acontecer, mas agora não é hora de ser sincero.

Sunny me dá um abraço. “Bernarrrdo! Tá na hora, né? Todo mundo tem que ir uma hora…”

Volto pra mesa e eles me olham. “É agora?” pergunta Maria.
“É… É agora” respondo.
A gente se abraça forte.
“Vou sentir falta de vocês, sabia?”
Eu sei que eles sabem.

Sikkim me vê me despedindo e vem ao meu encontro.
“Quando você volta?”
“Não sei, Sikkim… Não sei mesmo”
“Na próxima vez, vai pro Sikkim também, é lindo. Pode ficar na minha casa, tá?”
“Vou sim, vou sim…”
Ele olha pra mim sério enquanto aperta minha mão.
“Por favor, não esquece de mim”

Pego meus chinelos e me vou, já com saudades.

- Parte 3 -

Acordo, faço minhas malas e vou até a agência de viagens. “Sir, não foi possível comprar a sua passagem”. Nenhuma surpresa, o que esperar de um xará com letras faltando?

Eu não vou ficar nesse lugar mais um dia, já estourei minha cota. Vou embora. Tem que ser agora! Pego um taxi até Margao e vou até uma companhia de ônibus. A única opção sai à noite, por 1600 rúpias. Vai esse mesmo…

À noite estou na beira da estrada esperando o ônibus aparecer. Aos poucos chegam outros viajantes e começamos a conversar. Todo mundo está indo pra Hampi. Um ônibus se aproxima, botamos nossas mochilas nas costas. Um homem careca tenta entrar, sem sucesso. “Como assim? Não tem lugar pra todo mundo?” Ele pergunta se exaltando. O responsável explica que são três ônibus indo pra Hampi e eles têm a relação dos nomes dos passageiros. Entram umas oito pessoas e ficamos quatro esperando os próximos. O careca é o canadense Robert, os outros dois são a alemã Julia e o francês Simon.

“Gente, vocês querem?” ele nos oferece uma garrafa de whisky que ele tira da mochila. Ninguém quer.
“Ok. Ok. A gente tá no meio do nada, nessa estrada suja, só queria ajudar há há”. Robert dá uns goles, se vira pra Simon e pergunta: “Então, como é que isso aqui se compara com o Brasil?”
“Eu sou o francês, mas tua pergunta não faz sentido”
“Ah, haha, desculpa, olha gente, já tô esquecendo quem é quem”. Ele se vira pra mim e repete a pergunta.
“Você não compara” respondo impaciente.
“Mas não é verdade que no Brasil todo mundo é sequestrado?”
Olho pro Simon, não conseguimos acreditar no que ouvimos.
“Eu oficialmente não tenho mais nenhum interesse nesse papo” puxo minha mala uns metros pra longe.
“Ei, cara, eu tô perguntando por que eu não tenho idéia”
“Isso eu já sei!”

O segundo ônibus chega e o homem anuncia: “São dois passageiros. Bernardo e Robert”.

Maravilha.

Ele encontra um lugar no fundo do ônibus e eu fico na primeira fileira. Dez horas de viagem até Hampi, esse homem não cala a boca, o ar condicionado tá poderoso demais e eu quero ir ao banheiro. A parte de trás dos passageiros se reveza mandando o canadense fechar o bico, a parte da frente pede pra desligar o ar condicionado. Ninguém ganha o que quer. Me concentro em buscar um estado semi-meditativo que me ajude a impedir um tsunami.

O dia está nascendo enquanto chegamos em Hampi. O ônibus para e somos cercados por tuktuks famintos. Cerca de 30 motoristas se empilham na porta ensandecidos lutando por espaço, como se uma celebridade estivesse prestes a descer. Mas não desce celebridade e não desce ninguém. O alvoroço é tanto que ninguém tem coragem. A porta do ônibus parece a boca do inferno, só falta eles entrarem e nos puxarem pra fora (e começarem um ritual canibal).

“Vamo gente! É pra descer!” Grita o motorista que quase nos congelou. Eu quero dar um soco na cara dele.

Pouco a pouco o ônibus se esvazia e lá fora eles lutam pela nossa atenção.
“Sir, aonde você vai?”
“Tuktuk, sir? Sim?”
“Qual hotel, sir?”
“FIQUEM QUIETOS, QUE CÚ!” Me sinto ligeiramente satisfeito, dou uma risadinha e espero abrirem o bagageiro. Pego minha mala e… “Hmm, algum tuktuk livre? rs”

Vamos pro centro dessa mini-cidade em busca de um hotel. A situação é emergencial.

Primeira opção:
“Oi, eu preciso de um quarto, pra uma pessoa só”
“São 1400 rúpias por noite, só temos um quarto duplo” a mulher me fala da sacada com um sorriso estranho na cara.
“Meu Deus! Não, obrigado”

Ando mais uns 50 metros e encontro a segunda opção:
“Só temos um quarto triplo, são 1800 rúpias por noite”
“Gente, qual é o problema dessa cidade?” Me irrito.

Alerta vermelho, preciso agir.

Volto pra primeira opção.
“Mulher, tá, pode ser o quarto duplo!” Falo me atropelando.
“Tá bom, o check-in é às 10 da manhã”
“Não. NÃO. Tem que ser agora!”
“Hahaha” Ela ri (da minha cara).
“Você tem um banheiro que eu possa usar antes das 10?”
“Ahm… Tem o meu só, mas… não dá…”
“POR QUE NÃO?”
“Muito ruinzinho…” O sorriso estranho continua ali.
“MEU-DEUS! TCHAU!”

Olho bufando pro garoto-tuktuk.
“Sir, tem outra opção ali…” Ele aponta.
Eu tô fechando negócio com o primeiro que me oferecer um banheiro.

Sunny Guesthouse. Entro quase quebrando a porta e uma velha ranzinza me atende.
“Preciso de um quarto, pra duas noites” estou suando frio.
“Tem esse aqui…” Ela abre a porta e revela um quarto horroroso de paredes azuis escuras.
“Tá. Tá. Quanto é?”
“1500 rúpias”
“Socorro! É demais!”
“PELAS DUAS NOITES” ela grita quase se transformando num bicho.
“ÓTIMO! Agora me dá um tempinho” enxoto a mulher pra fora do quarto e… OOOOMMMMM.

Ano novo

Te vejo de longe

Maria entra no Green Park acompanhada. Com ela um cara indiano, traje laranja, saia, barba, cabelo comprido. Ela anuncia “Gente, esse é o Balaknath” e se sentam comigo nas almofadas sem muita cerimônia. Vikram chega pra anotar os pedidos. O amigo excêntrico pede uma kingfisher, cerveja indiana.

“Já na cerveja, Balaknath?” brinca Maria.
“Só um pouquinho, faz tempo que eu não tomo. Ultimamente só whisky…” ele fala com um inglês quebrado.
Estou quieto assistindo os dois.
“Depois arranja problema com a Sociedade Sadu e não sabe por quê” diz Maria.
“CALMA, você é um sadu?” pergunto.
“Sim, desde criança. Todo dia meditação de lorde Shiva pela manhã”.
“Ele devia estar em um encontro nacional de sadus mas tá aqui em Goa” Maria ri escandalosamente e Balaknath a acompanha com uma risada bem particular. Queria gravar esse momento e mostrar pro mundo. Nunca havia me ocorrido que sadus não podem beber. Tampouco sabia que esses homens sagrados se organizam em uma sociedade e fazem encontros.

“Qual teu nome?” ele pergunta.
“Bernardo”
“Me chama de Baba”.

Daonde a Maria arranjou esse amigo? Provavelmente numa convenção de risadas escandalosas.

Eles preparam uma espécie de cachimbo cônico e procuram algo pra tampar um dos buracos.

“Segura isso” ele passa o cachimbo para Maria e sem pensar muito rasga sua camisa laranja.

“Gente, o que cê tá fazendo?” pergunto espantado.
“Camisa não é minha. Camisa é de Deus e tudo é de Deus, não tem problema” ele fala sorrindo.

Lá se vai uma camisa bem bonita, eu penso.

Thor se junta a nós e algumas kingfishers depois Baba está completamente bêbado falando de uma mulher que amou. Isso tá acontecendo mesmo? Eu olho pro Thor com cara de quem viu fantasma e ele dá uma risada discreta.

Dois dias depois estamos os quatro juntos esperando o tempo passar pra comemorar o ano novo.

Palolem foi tomada por indianos de outras partes do país. Animados, eles soltam fogos de artifício sem muita parcimônia e conforme nos aproximamos da meia noite começamos a ver lanternas de ar quente flutuando no céu.

Baba me conta da sua vida se sadu.
“Uns anos atrás eu fazia uma meditação que me deixava levitando”.
“Calma, quê? Levitando?” pergunto.
“Sim, um tanto assim” ele me mostra com a mão.
“Uau!” Fico pensando em como seria levitar.
“Olha aquela lanterna, que alto!” Baba aponta pra uma estrela.
“Baba, na verdade…” Paro um instante “É quase meia noite”

5… 4… 3… 2… 1…

Feliz ano novo. O mundo não acabou, eu continuo vivo, bem vivo. As coisas que eu odeio eu odeio menos e as coisas que eu amo eu amo mais. Eu vejo sorrisos ao meu redor e a gente se abraça com votos sinceros.

Minha viagem tá acontecendo.

No céu fogos de artifício, lanternas flutuando, e aquela estrela, que ilumina mais do que tudo. A estrela que me faz viajar.

Te vejo de longe

Caiaques e despedidas

Após o Natal, Emma e Malin ficariam apenas mais cinco dias. A mais ligeira lembrança de que elas iriam embora já era suficiente pra me deixar com um ar de preocupação. De qualquer forma, esses cinco dias precisavam ser aproveitados.

O Green Park continuava sendo nosso ponto de encontro, mas agora contávamos com novas companhias. Viktor, o sueco quase albino; William, o irmão mais novo risonho; Juha, o finlandês que fala como um professor de Hogwarts; Alex & Jenni, o casal fitness sueco; e alguns ingleses fanfarrões que eventualmente davam as caras. A dupla norueguesa Maria e Thor continuava por perto e Sunny e Vikram eram oficialmente os melhores anfitriões daquela praia. Aos poucos fiz amizade com o garçom tímido com cara de chinês. Ninguém dava muita bola pra ele, possivelmente por que o seu inglês era ruim e às vezes recebíamos o pedido errado, dois pratos do mesmo, e ele sempre com cara de confuso. Nunca soube seu nome, o chamava de “Sikkim”, o nome do seu estado.

Nossa vida em Goa parecia mais devagar a cada dia, mas o tempo voava diante dos nossos olhos. Queríamos algo novo.

Decidimos alugar caiaques em Palolem. Malin sugere “Já que os outros são super esportivos, a gente podia rachar um caiaque duplo”. É… um ano e meio indo quase todo dia pra academia e em duas semanas de viagem eu já virei um espantalho e tô recebendo ofertas de caiaque partilhado. “Vamo lá, Malin, a gente mostra pra eles como é que se faz!”. Emma, Viktor (o sueco quase albino) e Alex & Jenni (o casal fitness) optam todos por caiaques individuais. Eu e Malin disparamos na frente como se estivéssemos em uma competição. Corremos pro mar arrastando nosso caiaque na areia e remamos em direção ao nada com todas nossas forças enquanto os outros calmamente seguem nosso caminho lá atrás. Nossos remos descoordenados se batem a cada três ou quatro remadas, provavelmente por minha culpa. “Olha pra nós! Nada mal, Malin!” Paramos de remar. Malin está com um tom engraçado na voz. “A gente podia até dar uma nadada enquanto eles não chegam…” Ela começa a balançar nosso caiaque como se quisesse que ele virasse. “MALIN! Nãão, você não tem idéia de como eu nado mal, não faz isso!” Ela dá risada e voltamos a remar assim que os outros nos alcançam. O sol se põe, vemos golfinhos lá longe.

À noite vamos todos jantar em Palolem. As mesas dos restaurantes são colocadas direto na areia, iluminadas com velas. Bem charmoso, mas bem frio. Assim que o sol desaparece fica apenas o vento. Os europeus parecem não sentir nada, eu to congelando. Nariz começa a escorrer e acabo com os guardanapos das três mesas que estamos ocupando. Acho que essa é a minha deixa. “Até amanhã, gente!”

Acordo oficialmente resfriado, em pleno paraíso. Queria ficar na cama o dia inteiro, mas preciso comprar remédio e dar tchau pra Emma e Malin, que partem em breve. A busca por um xarope pra tosse me tira mais tempo do que imaginava. Vou correndo pro Green Park.

“Sunny, cadê a Emma e a Malin?” pergunto quase sem ar.
“Elas já foram, irmão… Dez minutos atrás”.
“Não… Sério!” Vou até a entrada do restaurante e vejô o bangalô colorido delas fechado. Elas se foram.

Me sento e fico quieto. Não posso acreditar.

Alguns minutos depois eu iria conhecer um dos personagens mais imprevisíveis da viagem.

Natal

Dia 24 de dezembro, longe de casa. Não sei como a data será comemorada, mas será. Pra mim Natal não é uma celebração religiosa, é dia de passar tempo com a família, dia de ficar bonito, comer bastante, dormir tarde e não reclamar da vida. Eu tô no lado contrário do planeta, então hoje minha família são duas suecas e quem mais estiver por perto. Meu plano é jantar no Green Park com quem quiser um primo brasileiro e depois ver o que acontece. Ainda tenho um dia inteiro pela frente, saio em direção à Colomb Bay, conforme o ritual.

Emma e Malin estão na sacada ouvindo música. Parece que a gente virou lagartos desde que chegamos em Goa. O que fazer? Ninguém fala nada. Olhamos pro mar: É, não é uma má idéia. Vou me trocar e volto com uma sunga que compete com os tiozões russos que a gente vê todo dia. Sinto a necessidade de me justificar. “No Brasil todo mundo usa sunga…” É, não exatamente, mas já me sinto menos indecente.

Eu e o mar, o mar e eu. Uma relação conflituosa desde aquele dia em que uma mini-onda derrubou aquele mini-Bernardo. Eu me lembro de ser bem novo, provavelmente novo demais pra me lembrar de alguma coisa. Me lembro de estar sozinho no mar. Se aquela onda soubesse o que ela estava prestes a causar ela não teria feito nada. Mas ela me empacotou sem muita piedade. Eu lembro que eu bati no fundo, que não tinha nada que eu pudesse fazer enquanto o mar quisesse brincar comigo. Enquanto eu girava eu abri os olhos e não sabia o que era pra cima e o que era pra baixo. Quando o mar me devolveu eu só queria chorar, mas fiquei sentado na areia tossindo, com gosto de sal na garganta.

Sou um péssimo nadador. Desaprendi depois de criança e fiz dois meses de aula quando eu tinha 21 anos. Não por vontade, por vergonha na cara.

Aqui estou, entrando no mar, na Índia. Eu tento me lembrar quando foi a última vez, mas não sei. Pode ser que tenha sido uma década atrás. Vou devagar e fico só com a cabeça pra fora. Fico ali parado, como se estivesse em um ofurô. Emma e Malin conversam em sueco com uma mulher. Chega o marido. Chega a filha. Todos dão risada, conversam animados. Eu gosto do som da língua deles, tenho ouvido todos os dias e não me importo. A filha, de uns vinte e poucos anos fala algo sobre a Argentina.
“Oioi, você falou Argentina?” pergunto.
“Oh, eu achei que você também tava entendendo”
(Oi? Querida, olha a minha cara de guapeca, não sou sueco)
“Não não, sou brasileiro”
“Brasileiro! Eu tava morando na Argentina, estudando espanhol. Dei um pulo no Brasil, amei!”
“Bernardo, prazer!”
“Tova”

Meia hora depois eles saem da água. Fico ali, assistindo de longe o movimento no Green Park, os gaviões sobrevoando, os cachorros descolados que moram na praia. Às vezes eu vejo peixes imaginários e entro em pânico, às vezes uma alga me toca e eu quase tenho um troço. Saio do mar como quem sai de uma sessão de terapia.

Encontro Emma e Malin nas almofadas do Green Park. Tem dias em que surgem criaturas bizarras na roda. Hoje são dois ingleses velhos, chapados e espaçosos. Um deles parece que vai perder todos os dentes assim que der a primeira risada. Não, obrigado. Fico batendo papo com o Vikram, garçom querido, nosso amigo. Ele me conta daonde cada um dos garçons vem. Ele vem de Himachal Pradesh, no norte. O tímido com cara de chinês vem do Sikkim, do outro lado desse país gigante.

No meio da tarde volto pro meu bangalô e durmo. Acordo com fogos de artifício. Me troco, faço a barba e vou pro Green Park. Nos sentamos em uma mesa cheia de gente. Comemos, bebemos, o Sunny aparece com uma fantasia horrorosa de robô. Não parece Natal mas não me queixo. Olho ao redor. Eu realmente gosto desse povo.

Quem vai na festa do Cozy Nook? Logo temos um grupo de umas dez pessoas indo em direção ao fim de Palolem. Dois deles são os suecos Viktor e William, logo descubro que são irmãos de Tova, que conheci no mar. Todo mundo meio bêbado, e a festa só nos piora. Voltamos pro Green Park de madrugada, é incrível como esse lugar tá sempre aberto. Tá na hora da ceia no Brasil. Skype com a família. “Oooi, tá tudo bem por aqui! FELIZ NATAL!” Tento disfarçar minha condição, mas não tem como.

Colomb Bay

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